Ter uma experiência internacional, seja para aprender um novo idioma ou para somar mais um trabalho no currículo, é um sonho que vai muito além dos muros do colégio. Quem não teve a oportunidade de fazer intercâmbio enquanto estudava, por falta de grana ou por foco na carreira profissional, pode encarar essa aventura depois de formado.
O casal Otávio de Campos, 30 anos, e Fernanda Pereira, 29 anos, é o exemplo perfeito de que não existe idade certa para fazer intercâmbio. Em 2009, eles deixaram para trás a vida estável que levavam em São Paulo e decidiram se mudar para Manly, na Austrália. “Ter essa experiência era um sonho antigo. Quando era mais novo, não tinha recursos financeiros e meus pais não julgavam ser tão interessante”, conta Otávio, que na época da viagem já tinha concluído a graduação de Engenharia de Produção Mecânica e trabalhava havia seis anos em uma empresa fabricante de ferramentas industriais.
Fernanda é enfermeira por formação, mas atuava na área de pesquisa clínica quando decidiu acompanhar o marido rumo à Austrália. Ela fala que não foi fácil tomar a decisão de trocar sua carreira por uma situação incerta, mas a oportunidade de aprender inglês a motivou. “Na pesquisa clínica é muito importante saber falar inglês, tenho que usar o idioma no dia a dia da profissão. E eu não sabia quase nada”, explica a enfermeira.
Durante os dezoito meses que moraram na Austrália, Otávio estudou inglês por cinco meses e conseguiu obter o certificado FCE, da Universidade de Cambridge, que garante a proficiência no idioma. Já Fernanda frequentou as aulas durante toda a viagem e chegou ao nível intermediário.
Apesar de terem se organizado financeiramente antes de sair do Brasil, o casal não precisou usar as economias na temporada no exterior. Isso porque os dois conseguiram emprego logo que chegaram a Manly. Para pagar as despesas com o aluguel do apartamento em que moravam e o curso de inglês Otavio trabalhou como bar tender, entregador de jornal, garçom e assistente em uma empresa de marketing.
A formação em Enfermagem de Fernanda garantiu um emprego de baby sitter logo no primeiro mês do intercâmbio e, para ganhar uma grana extra, ela também fazia faxina em algumas casas de família. Ela conta que a família da criança que cuidava era muito bacana e a recebeu muito bem, porém, Fernanda lamenta não ter podido atuar na sua área de formação. “O governo australiano exige um certificado para trabalhar com pesquisa clínica e, fora isso, meu nível de inglês não era tão bom”, diz ela.
De volta para casa
Otávio e Fernanda viveram situações diferentes ao voltar para o Brasil. Ele conta que não teve dificuldades para se inserir no mercado de trabalho e que pôde escolher entre várias propostas de emprego. “O conhecimento de inglês abriu muitas portas, as melhores oportunidades tiveram entrevistas em inglês”, afirma ele, que há quatro meses atua na área de desenvolvimento técnico de uma empresa de lubrificantes.
Fernanda conta que, de forma geral, o intercâmbio teve um saldo positivo, mas acredita que a experiência prejudicou seu desenvolvimento profissional. “Eu estou começando do zero”, diz ela, que atualmente trabalha com pesquisa de produtos farmacêuticos e novos medicamentos.
Novos horizontes, novas expectativas
O paulistano Renato Flit, 27 anos, também faz parte do time de jovens mais maduros que decidiu se aventurar num intercâmbio depois de ter concluído a graduação e com um emprego garantido. Ele se formou em 2006 no curso de Administração Pública da FGV e, na época, trabalhava havia mais de dois anos como assessor na Subsecretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), em Brasília.
Motivado por uma insatisfação profissional e a aprovação para uma vaga de cadastro em um concurso público, Renato decidiu passar um tempo fora do Brasil. “O plano original era de ficar fora por três meses para melhorar o inglês e buscar novos aprendizados para minha carreira. Queria viajar até ser convocado para a vaga de funcionário público ou até o fim das minhas economias”, conta.
Em 2010, Renato fez as malas e decidiu voar para o Canadá, país onde seu irmão mora. Porém, a ideia
de ficar uma temporada na América do Norte só para estudar inglês não agradou o administrador público. Foi quando surgiu a oportunidade de atravessar o globo e participar de um projeto social na Índia.
Nos seis meses seguintes, Renato e outros três pesquisadores mapearam trabalhos sociais e iniciativas preocupadas com o bem estar da população indiana. Após concluir esse projeto, o jovem seguiu para o país vizinho, Bangladesh. Lá, teve a chance de fazer um estágio de um mês no Banco Grameen, instituição que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2006 pelo seu trabalho inovador de micro-crédito voltado para a população carente.
Viajando pelo sudeste asiático, Renato se dedicou a várias atividades temporárias para conseguir se sustentar. Ele fez tradução de sites para o português, ficou responsável por uma pousada na Tailândia durante uma semana, publicou textos em um blog de economia com foco em projetos sociais e até fez uma ponta como ator numa produção em Bollywood. A palavra de ordem era aproveitar todas as oportunidades e tirar a melhor lição de cada uma. “Passei por um aprendizado enorme”, afirma.
Renato conta que a vivência multicultural mudou suas expectativas profissionais. “Tenho vontade de trabalhar com projetos sociais”, diz ele, que acredita que as mudanças tenham alcançado também o lado pessoal. “A viagem abriu minha cabeça para muita coisa. Aprendi a me virar, conheci outras culturas e troquei experiências com pessoas diferentes. É importante sair da sua realidade e perceber que o mundo não se resume ao lugar que você mora”, diz.